10 de outubro de 2012

O que Neve me diria se pudesse falar (1)

Quem me conhece sabe que religiosamente saio com a Neve duas vezes por dia. Sairia três vezes, se tivesse mais tempo. Assim como nós, cães precisam, para além das suas necessidades, sair para encontrar os amigos, para não deprimir, para ver as novidades, para ver a paisagem, para conversar. Na verdade, nesses nossos passeios, acho que eu mais converso do que a Neve. Fico conversando comigo mesma, e com ela, sobre o trabalho, sobre a sobrevivência, sobre as experiências que não deram certo, sobre as pessoas que habitaram minha casa e que ela conheceu. Converso com Neve sobre nossos respectivos semelhantes que não encontraram a sua sorte, aqueles que estão abandonados e que vemos todos os dias nas ruas. A tristeza da nossa impotência... Recentemente, um dos assuntos recorrentes tem sido as perdas: perdemos pessoas queridas, pessoas que conhecemos perdem seus familiares, perdem seus pertences, perdem seus afetos...isso tudo gera tristeza. Chego à conclusão que apesar de tantas perdas, a vida nos dá muito - em geral deletamos o sentimento de gratidão, cobramos sempre. Da vida, ganhamos e perdemos todos os dias. Nascemos sabendo que vamos perder. Manter dá trabalho e é preciso muita coragem, muita luta. Será isso a sobrevivência: a luta para manter? Olho para Neve enquanto penso essas coisas todas. Neve olha para mim, com seu olhar de paisagem. Fico imaginando o que passa nessa cabecinha. Talvez ela pense assim: "Um dia eu nasci. Um dia tive pais. Um dia eu tive uma família, uma casa. Num dia, eu estava amarrada a um poste, no meio do nada. Tinha sido abandonada, perdido tudo. Depois de dois dias, eu passei a ter uma outra vida. Eu passei a ter uma família grande de pessoas e outros animais que eu nunca tinha visto. Depois eu voltei a ter uma família, pequena, mas é uma família. A vida é assim. A gente tem tudo. A gente perde tudo. E precisa continuar viva." Acho que ela estaria muito certa: a gente tem tudo e a gente perde tudo.

2 comentários:

marieloupe disse...

Nós nos reconhecemos como tal nos espelhando no outro. O que Neve é agora é o reflexo que ela vê naquela que lhe deu vida - outra ou a primeira, não sei.

Kati disse...

Que texto lindo. Neve é uma sábia :)