12 de julho de 2012

Tem seres que nos salvam da crise de pânico de chuva


O pânico de chuva não acontece da forma suave como o vento que esbarra em seu guarda-chuva amarelo, escorrendo nele pingos d'água, num final de tarde de verão, em cenas de cartão portal. O pânico de chuva nos pega de surpresa, injusto ao dobrar a esquina. Ele vem meio de soslaio e de repente firme está diante de nós - em tempestade. A primeira vez que aconteceu estava eu na casa dos trinta e pouquinhos anos. Foi em São Cristovão, já morei em São Cristovão, com meus pais. Eu corria a longa avenida indo para casa debaixo de uma chuva, sem fôlego. Corri. Saltei a calçada inundada. Aliás, não havia calçada. Havia escuridão. Quando subi as escadas de casa, corri para o chuveiro...e desabei a chorar. Na segunda vez, estava indo da Gávea para o Leblon, atravessei a Visconde de Albuquerque toda a pé. Os salgueiros choravam comigo naquela travessia desesperada. Não era noite, mas era noite. Cheguei à casa bufando, ensopada, derrotada pela água. Taquicardias.... Numa data desse período, eu a enganei, vou explicar melhor: estava na BR-040, eu dirigia, e a tempestade corria na minha frente. Era uma situação de emergência, e a tempestade me deu trégua, mas não esqueceu. Na Patagônia Argentina ela me fez lembrar que um dia me deu trégua, e me fez temê-la novamente. A chuva, a tempestade, a água. Quando mudei para o Cosme Velho, chovia muito em minha vida. A chuva, a água, o vento, o frio me fazia lembrar os animais de rua abandonados à própria sorte. Eu começava a chorar. Meu coração doía. Chegava em casa latindo. Sentava. Respirava em soluços. E corria para o chuveiro quente. Recuperava o controle. Nestes últimos tempos, eu tenho deixado a chuva vencer a partida de xadrez. Não adianta guarda-chuva, não adianta capa, não adianta botas. Mesmo me blindando toda, a água me inunda os músculos, enrijecendo-os. O coração não mais me dói, vira pedra, pesa. O novo sintoma deste pânico agora é a confusão...mental. Aonde estou, para onde vou, o que vou fazer no meio deste temporal. O vento me leva à própria sorte, num "redemunho", como diria Guimarães Rosa. Só mesmo a lembrança do meu cão para me laçar e trazer-me de volta à superfície da realidade. Hoje, em Ipanema, eu fui salva da chuva pela Neve. Ironia de fonte semântica: a chuva e a Neve. Para desabafar, corri para o Facebook e escrevi: "Numa crise de pânico na chuva só a gente pode se salvar...". Minha amiga Cristina Bomfim me disse na sucessão de 20 comentários: "tem seres que nos salvam."

No fim, na crise de pânico de chuva, quem me salva é um ser chamado Neve!

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