14 de março de 2012

Sempre às 19horas

Alguns momentos em nossas vidas só passam a ter importância, valor, quando não mais os vivenciamos. O jantar servido às 19horas é um desses momentos mágicos, que por força dos caprichos ordinários, passou desapercebido em minha vida. Eu me aprontava sem reclamar para bater pontualmente na porta do templo. Subia a rua em disparada para não atrasar. Acostumada a servir, naquele momento eu era servida, e amada, sem perceber. Nada melhor do que a refeição para dar a oportunidade de oferecer amor sem dizer. A luz da casa era perfeita, nem ofuscava nem ocultava os movimentos realizados para o "mise en place". Talheres nos lugares corretos, taças para cada tipo de bebida, a louça de gerações e gerações, a delicadeza do jogo de mesa, palavras escolhidas para agradar. Hoje em dia, raramente encontramos pessoas educadas e prontas a servir não só o melhor em alimentos, mas em delicadezas. Filigranas de amor que não percebemos. Histórias de família em confissões segredadas, piadas graciosas que alegravam a alma e atualidades que marcavam observações do mundo. Comme il faut! À mesa, uma sequências de pratos servidos sincronizadamente, sem atraso, num timing perfeito - como deve ser na cozinha, como deve ser ao servir. Das paixões guardadas na memória ficam as histórias de família e a sopa de cogumelos servida na sopeira individual com tampa de massa folheada. Um luxo! Quando nos desapegamos dos caprichos do ego, percebemos o quanto somos presenteadas pelas pessoas que encontramos na vida. Mudar a perspectiva do olhar e perceber isso é um grande benefício. Para Inge Schroot, muito obrigada por todas as ocasiões especiais.

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